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Denilson Cardoso de Araújo


 
 

TOQUEM O SHOFAR*

 

Para uma amiga, numa hora difícil

 

Sabendo da tua história, das preocupações,

com interrogações e medos, elevo meus olhos para os montes.

O Dedo de Deus me aponta uma estrela. Ali está escrito:

os que esperam no Senhor renovarão as suas forças.

Posso ver, por baixo da lágrima de susto, de beira do abismo.

Posso ver. Ele é o Pastor do rebanho: nada, nada faltará.

Nem relva fresca, nem água tranqüila.

Nem mesmo para a mais mínima ovelha,

para a centésima ovelha, ou para a ovelhinha perdida.

Nada faltará. Está escrito. Há milênios.

Afinal, do Senhor é a Terra, e tudo o que nela existe.

E a plenitude que está em volta, vias lácteas, universos.

Nem um passarinho cai do céu sem que o Senhor autorize.

E o Senhor conhece a criança no ventre da mãe.

A criança que é sonho. Deus gosta de sonhos. Deus ama crianças.

A caligrafia de Deus é que escreveu o seu DNA.

Daí Ele vê, no que ainda é grão de gente ou gota de alma

a linda pessoa de quem ciência teremos só quando for amanhã.

E se nem Salomão vestiu majestade como os lírios do campo,

quanto cuidado Deus não terá por essa jóia da sua obra?

Por isso, nessa hora difícil, só posso beijar tua testa e dizer:

entrega o teu caminho ao Senhor, confia nEle. Ele fará.

Ele é contigo. Ele fará. Por isso, fogo nunca vai te queimar.

Por isso, ventania não vai te derrubar. Ele é contigo.

Tempestade? Não pode te afogar. Ele é contigo.

Ele está no barco, Pedro. Ele está na fornalha, Daniel.

Ele é contigo. Afinal, você construiu uma casa na rocha.

Ele é contigo. Você lançou tuas sementes. A colheita é Dele.

Que o rosto de Deus resplandeça como um sol, sobre ti.

E que te dê os arcos-íris da paz. Que a fé te conduza..

Coluna de fogo, nuvem branca... Ele é contigo.

Mesmo nos desertos da tribulação, nós sabemos. Você sabe.

Porque os desertos de Deus são começos, preparos,

são vésperas de vitórias grandiosas, de muralhas derrubadas,

de mares vencidos, conquistas, glórias, manjedouras.

 

Prepara teus alforjes. É mais uma batalha.

Você passou por outras. Você viu Deus agir.

Veste tua roupa de combate! Toquem o shoffar!

Venham os levitas!  Conclamem as tribos!

A guerreira de Deus vai lutar!

 *.*

*Shofar : Instrumento sagrado dos hebreus antigos. Usado para louvor e convocação.



Categoria: EU E OS MEUS
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 21h18
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SuKanta - Sucata que encanta

 

 Hoje, agora há pouco. Centro do Rio. Largo da Carioca. 13 horas.

          Cinco pessoas meio esfarrapadas, roupas puídas, uma menina de pés descalços, uma garota de rua crescida. Abrem uns sacos. Desembarcam sob o sol tímido uns restolhos de ferro velho, sobras de lixeira. Uma frigideira cascuda de ferrugem. Um latão de tinta amassado. Um tonel velho. Colheres. Madeiras em toco. Dali há pouco, mágica! A cinderela-sucata vira uma bateria!!! Com arrumação convencional. Bumbo, pratos, taróis... Tudo lata velha. Ah, tem também um microfone que funciona só quando quer. Entre apagões sonoros e algazarra espalhada num alto-falante tipo buzina de carrocinha, ouve-se algo parecido com uma embolada-reggae-samba-funk. Os silêncios, dizia John Cage (e outros tantos mais qualificados), são música, afinal. Os ruídos e microfonias (diria Tom Zé), também.

             O fato é que se derrama um ritmo bom, gostoso, brasileiro, de escravos de ganho, cantando seus sembas na feira, de trabalhadores em festa de colheita, de gente dos portos, das vilas, comemorando com seus trapos, suas vestes bispo-do-rosário, costuradas de rosas de barbante vermelho, um ritmo bom, gostoso, brasileiro, de hino nacional mascado que nem chiclete, essa coisa bonita de letra incompreensível que encanta: "Osvirudus poranga marchipláceta... Dus povherótio bravo returbântchi... Ius sol da liberdadimraius fúrgidos..." e por aí indo, essa letra incompreensível (que não precisa mudar nada, parem com isso, acadêmicos!) que frente ao verde-amarelo faz inchar o peito do brasileirim mais mirrado, essa coisa que encanta, e que agora identifico ali naquele rock-embolada mais embolada que já vi, mas que encanta, tanto que pára o mundo todo ali. no Largo da Carioca, esse palco iluminado de tantas epopéias...

             A menina começa a sambar um requebro durinho, de pé miudinho, e um dos caras, marcando o compasso com um triângulo de vergalhão (juro!), começa a dançar de passo marcado. E cantam, cantam, e o povo pára, as secretárias, os juízes, os pipoqueiros, os namorados, uns japoneses que filmam tudo, claro, e uns adolescentes de mochilas de vento... vai o Rio de Janeiro, parando ali, em volta daquele sol posto no Largo, com todas as suas lições. Os esfarrapados viraram príncipes, uma corte de nobres artistas, saltimbancos mágicos, cheios de súditos, alguns, bem vestidos em ternos, tailleurs e jeans caros.

           Ah, amigo, tua vida é uma lata velha, uma frigideira rachada, umas canecas de folha? Faz assim: amarra umas nas outras, vai pro sol e... batuca!... Batuca e canta... Batuca que encanta. Pra Deus nunca há sucatas. E aquela alegria na miséria mais tosca, é Deus semeando.

         Durante a execução do show inusitado, teve gente requebrando, claro, estamos no Rio! Quase todo mundo sorrindo. Ao final, choveram aplausos. E moedas. E saí do Largo da Carioca, esse meu mestre-escola de tantas décadas, com mais uma lição aprendida.



Categoria: POESIA, ARTE E CIA
Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 15h31
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